terça-feira, 16 de novembro de 2010

O conceito da arte e da moda ou da arte-moda?

Arte ou moda? Arte e moda? Moda é arte? Essas são duas palavras que, sempre que aparecem juntas, provocam discussões acaloradas, pois alguns ilustres artistas não admitem que algo tão efêmero, pensado para durar pouco e totalmente relacionado à sociedade capitalista, possa ser arte. Já outros até se arriscam a traduzir em “roupas” alguns dos elementos presentes em suas pinturas ou esculturas.
Isso tudo faz lembrar um artigo de Adélia Borges chamado Designer não é personal trainer, onde ela tenta explicar o conceito do design e relacioná-lo ou diferenciá-lo da arte, apresentando pontos de vista de designers que se consideram designers e ponto e de designers que se consideram artistas, sim, e daí?

A questão hoje é essa. Esse ensaio proucra trazer mais algumas referências para refletir se moda é ou não arte. E para isso é preciso primeiro pensar um pouco a respeito da concepção que temos de arte. Apresento então três manifestações: “A Fonte” de Marcel Duchamp, 1917. “Marilyn Monroe” de Andy Warhol, 1962 e os parangolés de Helio Oiticica. Para você, essas manifestações são consideradas obras de arte ou não?

Bem, se pensarmos na tradicional concepção de arte, é possível que se chegue à conclusão que são apenas delírios de alguns loucos que se diziam artistas. E aí, vem à mente mais uma cena. Julia Roberts no papel de Katharine Watson, no filme O Sorriso de Monalisa, tentando ensinar história da arte para as alunas de uma escola aristocrática da década de 50.

Watson tentava mostrar às alunas da sua classe que a concepção tradicional de arte estava ligada a uma receita que era tida como valor inquestionável e como degrau da evolução humana, já que possuía mais refinamento que qualquer outra forma de manifestação. Porém, esta não era mais a base de reflexão e definição do que era arte. Esse movimento que começou a se desenvolver desde final do século XVIII, mas ganhou força no início do século XX, pensava em novas referências para a arte. E foi aí que surgiu Marcel Duchamp, dando o pontapé para a discussão dessa nova visão de arte e, mais tarde, desencadeou o movimento conhecimento como arte conceitual.

Em 1917, Marcel Duchamp surpreendeu o mundo da arte ao levar para uma galeria a obra intitulada “A Fonte”, que consistia num mictório com uma única intervenção do artista: a assinatura R.Mutt. A obra, seguida de várias outras, iniciou uma discussão então do que era entendido como arte e o que poderia ser considerado arte, já que novas formas de expressão surgiam e um novo contexto social, econômico e cultural, se instalava no início do século XX, como a fotografia e o cinema.

Walter Benjamin escreveu sobre isso e sobre a questão da reprodutibilidade nessas novas formas de arte. Segundo Benjamin, em seu texto A obra de arte da era da reprodutibilidade técnica, “o aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo. A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica”. A partir da era da reprodução técnica, a relação com a obra passa a ser outra. Ao contrário do passado, quando muito do seu valor estava em ser única e quase inacessível, com a reprodutibilidade técnica a obra de arte fica mais próxima das massas e, nem por isso deixa de ter valor e ser desejada. Fazer as coisas ‘ficarem mais próximas’ é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através de sua reprodutibilidade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução, explica Benjamin.

Além da idéia da reprodutibilidade, um outro movimento, o da arte conceitual que ganhou força na década de 60, também propôs novos elementos para o entendimento da arte. A Arte Conceitual, de modo geral, opera na contramão dos princípios que norteiam o que seja uma obra de arte e por isso representa um momento tão significativo na história da arte contemporânea. Em vez da permanência, a transitoriedade, a reprodutibilidade en vez da unicidade; contra a autonomia, a contextualização, a autoria se esfacela frente às poéticas da apropriação e a função intelectual é determinada na recepção.

Os representantes da Arte Conceitual entendiam que a idéia da obra era mais importante do que a realização do trabalho em si, cuja porção visível era aparente ou secundária. Para eles, o processo criativo do artista, e não o seu resultado é o que mais importava.

A partir disso e das obras apresentadas acima, acredita-se ser possível traçar um paralelo entre a arte e a moda. A moda é pautada na efemeridade, na mudança constante e trabalha o tempo todo a partir de elementos estéticos, assim como a arte: o jogo de cores, as texturas, as linhas e os volumes são parte da composição de um produto de moda. Isso sem falar no movimento, elemento das chamadas artes menores a que a moda se submete mas que dá a ela um formato único. Gilda de Mello e Souza complementa “é o movimento, a conquista do espaço, que distingue a moda das outras artes e a torna uma forma estética específica”. A moda é uma forma de arte que sofre a influência do espectador ou do usuário. Na arte contemporânea é uma das grandes propostas. Quantas vezes encontram-se obras, instalações em bienais ou museus de arte onde a proposta é interagir de modo físico com o espectador? A moda sempre fez isso.

Assim, pensar em moda e pensar em arte não deve ser algo tão distante. Os elementos que sustentam a arte conteporânea e os elementos que caracterizam a moda são muito similares, principalmente se obervarmos o contexto atual e as suas propostas. Voltando portanto à construções envolvendo as duas palavras: moda e arte, qual delas se fixa melhor para você?

Fonte: http://gramorelli.wordpress.com/2008/06/

Nenhum comentário:

Postar um comentário